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Profissão Midwife

Destaque Principal, Fique por dentro, Mais Lidas, Sem categoria 12 de julho de 2021

Quando ouvimos a palavra “midwife” pela primeira vez, corremos no dicionário e temos a tradução literal de “parteira” e de acordo com o que temos em nossa cultura, parteiras são as mulheres, normalmente mais velhas que antigamente, faziam partos nas fazendas ou cidades sem hospitais, como vimos em muitas novelas, certo?

 

Errado. Este nosso velho conceito cai por terra quando descobrimos que na prática a profissão de “parteira” aqui no Reino Unido tem formação acadêmica de 3 anos, e é uma das mais conceituadas e respeitadas, afinal de contas são elas que trazem os bebês ao mundo. Só para ter uma idéia, foram mais de 755 mil nascimentos em UK em 2017, de acordo com os números do Office for National Statistics.

 

Segundo estatísticas de outubro do mesmo ano, da fullfact.org, organização não-governamental que publica e verifica dados, existem registradas somente na Inglaterra cerca de 22.000 midwives, números que muitas pesquisas apontam não serem suficientes para atender toda a demanda. De acordo com The Royal College of Midwives, estima- se que há uma escassez de 3.500 profissionais na Inglaterra.

 

Para conhecer um pouco mais sobre esta profissão, conversamos com a midwife Suzan Corrêa, que é curitibana, casada, mãe de 3 filhos e vive em Londres há mais de 13 anos. Formada pela University of West London, trabalha como midwife no Sistema de saúde NHS e no setor privado, além de ser Doula e consultora em amamentação formada e credenciada pela UNICEF. Suzan também oferece cursos de preparação para o parto, cuidados com o bebê e amamentação, tem especialização em parto natural, é escritora de artigos sobre o assunto e recentemente tem se interessado e atuado na área de safeguarding, assistência para mulheres que precisam de atendimento social mais específico.

 

Suzan você poderia nos explicar o que é a profissão de midwife?

 

A Midwife é uma profissional capacitada através de uma graduação para atender gestantes durante a gestação fazendo o pré natal, atendendo a partos sejam estes em casa ou hospitalar, e também atendendo no período pós parto.

 

Na Inglaterra a midwife é reconhecida como um profissional responsável que trabalha em parceria com mulheres para dar o apoio, cuidados e aconselhamento necessários durante a gravidez, parto e pós-parto, para conduzir partos com responsabilidade própria e prestar cuidados ao recém-nascido. Este cuidado inclui medidas preventivas, a promoção do parto normal, a detecção de complicações na mãe e na criança, o acesso a cuidados médicos ou outra assistência adequada e multidisciplinar e a realização de medidas de emergência.

 

A Midwife tem uma tarefa importante no aconselhamento e educação em saúde, não apenas para a mulher, mas também dentro da família e da comunidade. Este trabalho deve envolver educação pré-natal e preparação para a parentalidade e pode estender-se à saúde das mulheres, saúde sexual ou reprodutiva e cuidados infantis

 

Você saberia nos dizer se sempre foi assim aqui na Inglaterra, foram sempre a as mulheres responsáveis pelos os partos?

 

Sim. A profissão de Midwife começou a ser reconhecida em 1902 com o Midwives Act.

 

Desde então está profissional passou a ser totalmente responsável a atender parto. Porém a própria história nos mostra que antigamente mulheres ganhavam seus bebês no seio dos seus lares acompanhadas apenas pelas então “parteiras tradicionais” e outras mulheres como irmãs, mães e etc. O parto é um ato feminino, sendo assim nada mais justo do que ser acompanhado por mulheres além de seus companheiros, uma evolução que conseguimos com o tempo.

 

Qual é a rotina de uma midwife?

 

A Carga horária full time são 37.5 horas, são turnos de 12.5 horas, normalmente 4 por semana. O horário de break não é pago, e nunca tem break porque faltam midwives. Já tive esta experiência em todos os hospitais que trabalhei. É um trabalho extremamente estressante, você lida com emergências, com um número grande de pacientes, com a falta de staff. Digamos assim, são 10 midwifes por turno, você vai trabalhar tem 8, tem 7. Sempre tem alguém off sick, ou de férias, sempre tem um problema e você acaba trabalhando dobrado. É um trabalho que exige muita atenção, muita dedicação. Você tem que estar muito sóbria, com sua atenção totalmente voltada para aquela paciente.

 

Eu por exemplo¸optei por trabalhar somente à noite, só faço plantões noturnos, porque eu escolhi assim. Eu trabalho part time, mas mesmo assim o cansaço de trabalhar à noite é grande. Chega uma hora no meio da noite que você está cansada porque seu corpo não responde mais. Por mais que você durma de dia não é a mesma coisa. Você está lidando com duas vidas, então tem que estar muito atenta aos detalhes, ser acima de tudo muito responsável e saber o que fazer no momento certo, agir com clareza e experiência, principalmente nos momentos de emergência que são os mais críticos. Por outro lado é uma profissão extremamente gratificante, que eu não trocaria por nenhuma outra. Estar presente no parto, estar presente no momento em que uma família nasce. Ajudar uma mulher a ter o bebê dela, seja da maneira que for, é muito gratificante.

 

Uma coisa que a gente escuta muito na nossa profissão é que nossas mãos são as primeiras a tocarem o bebê quando ele chega ao mundo, temos que receber este bebê com carinho, com atenção para que ele carregue esta marca do nascimento com ele, não as marcas de trauma.

 

Vocês recebem apoio emocional ?

 

Infelizmente não, o NHS não tem dinheiro e estrutura para dar este apoio, para te tirar do trabalho, para te proporcionar uma terapia. Tem muita midwife que fica com depressão, stress, precisa ficar em casa por causa disto. Eu mesma já fiquei. Cheguei a um ponto de stress extremo achando que não ia mais conseguir trabalhar. Partos difíceis, traumáticos que deixam as midwives com o emocional muito abalado. Quando eu faço parto de bebê que nasce morto, isto mexe muito comigo também.

 

Mudando um pouco de tópico. Nós viemos de um sistema de saúde completamente diferente. Quais são os principais pontos que as mulheres brasileiras acham estranho, digamos assim, sobre o atendimento  à  gestante por aqui?

 

O que eu escuto com maior frequência das brasileiras aqui e o fato de “não ter um médico” nomeado à elas, e em muitos casos nem o médico elas vêem. Viemos de um sistema totalmente medicalizado aonde está enraizado o fato de “termos nosso médico” aquele qual cuidou da mãe, da irmã e agora cuida de você.

 

Aqui não. Aqui a mulher irá ser acompanhada por uma Midwife e aos olhos de quem não conhece a capacidade profissional de uma Midwife fica mesmo com medo e assustada. Porém eu como mãe que teve filho no Brasil e aqui, prefiro e acredito que aqui o sistema é muito melhor. Há controversias sobre este meu statement. Muitas acreditam que aqui não existe o direito de “escolha” como por exemplo escolher uma cesariana. Porém aqui se da ênfase ao parto normal pelo fato dele ser a melhor opção, mas obviamente não para todas pois não podemos generalizar. Existem casos excepcionais que necessitam de um atendimento multidisciplinar e também uma cesariana quando existe a indicação, está opção também existe aqui.

 

Quando se lê sobre o assunto tem sempre a questão de a cada consulta ver uma midwife diferente, não teria como ser diferente?

 

Deveria e torcemos que em breve isso mude. Eu inclusive já tive artigos publicados sobre o assunto em uma pesquisa que fiz. A continuidade da profissional com cada mulher é essencial para o funcionamento lógico do acompanhamento, sendo assim a confiança existe na profissional o que deixa a gestante mais segura. O NHS no momento não tem recursos para providenciar uma Midwife para cada gestante devido ao número grande de gestantes que usam o serviço que nos últimos 6 anos aumentaram. Porém já existe um projeto no NHS para facilitar este modo de atendimento e esperamos que até 2020 ele esteja em prática.

 

Ainda é difícil para as mulheres, principalmente as brasileiras, aceitarem a idéia de ter parto normal ao invés de cesárea?

 

Muito. Isso é “cultural” se e que se pode dizer algo assim. Viemos de um país com o maior índice de cesárea do MUNDO. O Brasil e campeão mundial e autoridades como WHO, UNICEF entre outras já alertaram o Brasil sobre o risco que apresentam.

 

No Brasil a cesariana é uma “opção” e não uma necessidade. Muitas mulheres são enganadas por seis médicos com motivos absurdos para convencê-las a terem uma cesárea, pois para um médico no Brasil ele iria ganhar muito menos para ficar em um hospital esperando uma gestante em trabalho de parto, do que, no mesmo tempo ele poderia estar fazendo 3/4 cesarianas.

 

E uma situação difícil que leva as mulheres a aceitarem o que não precisam. Porém este quadro está mudando, ainda bem!

 

Em quais casos a cesariana é indicada pelos médicos em UK? São vários. Os mais comuns e de indicado real: 1) Prolapso de cordão – com dilatação não completa; 2) Descolamento prematuro da placenta com feto vivo – fora do período expulsivo; 3) Placenta prévia parcial ou total (total ou centro-parcial); 4) Apresentação córmica (situação transversa) – durante o trabalho de parto (antes pode ser tentada a versão); 5) Ruptura de vaso prévia; 6) Herpes genital com lesão ATIVA no momento em que se inicia o trabalho de parto (em algumas diretrizes, somente se for a primo-infecção herpética). 7) stress fetal durante o trabalho de parto

 

Porque você decidiu se tornar midwife?

 

Pela experiência que eu tive, tanto negativa como a positiva, pois ambas me abriram os olhos da importância do atendimento neste momento tão importante. Amo estar com mulheres e cuidar de mulheres. Poder facilitar e prestar atendimento com dedicação e amor neste período não tem preço. E muito satisfatório.

 

O que é ser midwife para você, Suzan?

 

Ser Midwife para a Suzan Corrêa e acima de qualquer coisa ter RESPEITO e um atendimento parcial sem julgamentos. O que é bom para mim, não é para você. Respeitar diversidades, aceitar diferenças e essencial. Ser Midwife para mim, e o meu conceito sobre minha profissão e de Apoio, acolhimento, entendimento e muita dedicação. Midwifery é amor.

 

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