Cultura do cancelamento: linchamento virtual e a saúde mental dos envolvidos

Fique por dentro, Mais Lidas, Mais recente 11 de fevereiro de 2021

De Anitta a J.K. Rowling, certamente você já deve ter acompanhado nas redes sociais um famoso influencer ou até um desconhecido sendo “cancelado”. O termo “cancelamento” surgiu em 2019 e, desde então, vem ganhando força no meio virtual. Seu conceito significa deslegitimar, evitar, ignorar uma pessoa e o que ela produz, como consequência de um comportamento, fala ou ação que possa ter sido considerado grave.

O “tribunal virtual” causa danos irreparáveis para pessoas que cometem erros – aqui não se incluem processos criminais, penais e casos que cabem à justiça. Os danos para quem está sendo alvo do cancelamento podem ser psicológicos, desencadeando, inclusive, traumas e complicações sérias.

Para a psicóloga Bruna Brunetti, o cancelamento no meio digital — que é uma espécie de cyberbullying —, na maioria das vezes, é motivado pela busca de atenção e aprovação social [de quem o faz]. “Esse senso de pertencimento na comunidade é um reforçador social, ou seja, quanto mais meu comportamento de julgar e excluir é apoiado por um grupo maior de pessoas, mais me sinto validado, me trazendo afirmação e poder. O meio digital apenas aumentou a busca por esse senso de pertencimento e, consequentemente, a exclusão rápida das pessoas que estão se mostrando ‘inadequadas’ e não merecedoras de pertencerem ao grupo”, afirmou.

Um exemplo de como ocorre, na prática, o cancelamento de alguém, envolveu a influencer brasileira Gabriela Pugliese, que, ano passado, em meio à pandemia do novo coronavírus, realizou uma festa privada em sua casa, ignorando todas as recomendações dos órgãos de saúde. Antes de desativar suas redes sociais como consequência da grande repercussão negativa do fato, Pugliese perdeu em pouco tempo 100 mil seguidores no Instagram, além de patrocínios com grandes marcas e várias possibilidades de novos trabalhos. Arrependida, reativou suas redes meses depois.

“A pessoa ‘canceladora’ se sente como uma espécie de justiceira social; não abre espaço para o diálogo, só enxerga uma versão dos fatos. A pessoa que promove o cancelamento da outra tem uma visão de tudo ou nada – classificamos na psicologia como pensamento dicotômico, uma distorção cognitiva que enxerga situações ou o indivíduo como 100% ruim ou 100% bom, e o perigo está justamente nisso, ninguém consegue ser assim, nem ela mesma. Isso pode gerar uma busca pela perfeição inexistente. Cancelar uma pessoa por uma ação é cancelar toda a complexidade humana inerente, é a identidade de alguém resumida a um único erro. Essa forma intolerante de punir não abre espaço para o arrependimento, e dificulta a mudança do comportamento indesejado, muitas vezes tendo o efeito oposto, quando as vítimas também podem replicar esses comportamentos se tornando possíveis agressores”, pontuou Bruna.

Além de danos materiais, os envolvidos em linchamento virtual (tanto cancelador quanto cancelado) podem sofrer danos na saúde mental.

Segundo a psicóloga, para a ciência, toda causa de transtorno mental é multifatorial (fatores genéticos, ambientais, história de vida, personalidade, etc.), portanto, não podemos dizer que o cancelamento tem relação de causa/efeito direta para o desenvolvimento de algum transtorno mental ou traços como transtornos depressivos ou transtornos de ansiedade, por exemplo, que são os mais comuns quando essa forma de abuso psicológico acontece, porém o cancelamento e suas consequências podem ser sim fatores desencadeantes para tais, dependendo do indivíduo.

A cultura do cancelamento age, muitas vezes, para causar danos como forma de punição. Mas quem tem o direito de afirmar que alguém está “certo” ou “errado”? Valores, ética, pontos de vista, ideologia política, senso comum, culturas, crenças, religiões, condição sexual, são motivos para linchamento virtual. E, se um indivíduo erra ao invadir o espaço e opinião do outro, ele não será perdoado, não poderá ter a chance de aprender com o erro e recomeçar. A partir de então, a sua vida será completamente mudada, julgada e, com sorte, terá chances para um recomeço.

Como seres humanos, não estamos passíveis de erros? Como seres em constante evolução, aprendizado e – alguns – dispostos a mudar a forma como nos relacionamos para melhorar o convívio em sociedade, ao cancelar alguém isso não anularia tudo o que se busca para melhorias? E a oportunidade de reflexão sobre o erro? Os lados implicados em assuntos polêmicos podem gerar conflitos internos ainda piores. Além disso, há casos em que esse linchamento transcende a rede virtual e começa a fazer parte de algo mais intenso e perigoso.

Buscar ajuda profissional para tentar amenizar as consequências na saúde mental dos envolvidos é a recomendação dada por especialistas. “A psicologia como ciência busca trazer ferramentas que ajudam os indivíduos a lidarem melhor com as situações, portanto, na terapia, o indivíduo estaria em um ambiente seguro para expressar todas as suas questões e, por meio do processo psicoterapêutico, entender qual a motivação da ação que o levou a agir daquela forma, qual a melhor maneira de aprender com aquela situação, desenvolver um olhar mais empático e realista por ele mesmo e pelos outros seres humanos, e aprender que a melhor forma de desconstrução não é pela punição pura e sem propósito, mas sim pela informação, a construção a partir do diálogo, e isso não significa anular o que aconteceu, mas aprender novas formas de pensar e se comportar por meio da comunicação não violenta. A psicoterapia também é fortemente recomendada para auxiliar o indivíduo a lidar com os abusos psicológicos que foram sofridos, e no possível desenvolvimento de traços ou transtornos”, destaca Bruna.

Por fim e para refletir, a cultura de cancelamento, além de punir, veio para ensinar sobre o quê? Essa cultura no meio digital que traz à luz discussões sobre várias questões sociais possibilita aprendizados ou gera ainda mais violência? Como absorver algo que desconstrua, gere valor, empodere, evolua e dê oportunidade para o diálogo?

Leave a Reply

Popular

  • 95º aniversário da Rainha Elizabeth II n...

    by on 4 horas ago - 0 Comments

    A Rainha Elizabeth II completa 95 anos nesta quarta-feira, dia 21, marcando o primeiro aniversário sem seu marido, o Duque de Edimburgo, que morreu aos 99 anos no dia 9 de abril.   Não haverá celebrações públicas, pois a monarca continua em luto até sexta-feira (23), e segundo a BBC, acredita-se que alguns membros da […]

  • Eleições para o Conselho de Cidadania do...

    by on 6 horas ago - 0 Comments

    O Consulado-Geral do Brasil em Londres, no uso de suas atribuições legais, torna público o Edital para eleição de 12 membros para a gestão 2021-2023 do Conselho de Cidadania do Reino Unido (CCRU), e convida a comunidade brasileira residente no Reino Unido para participar da eleição.   O CCRU é um foro informal e apartidário, […]

  • Covid-19: dez milhões de pessoas no Rein...

    by on 20 de abril de 2021 - 0 Comments

    Mais de 10 milhões de pessoas no Reino Unido receberam a segunda dose de uma vacina contra o coronavírus, isso significa quase 1 em cada 5 adultos no país. Os serviços de saúde em todo o Reino Unido já administraram um total de 43.084.487 milhões de vacinas entre 8 de dezembro e 18 de abril, […]

  • Mercados em Londres para visitar em 2021...

    by on 20 de abril de 2021 - 0 Comments

    London Eye, Tower Bridge, Oxford Street e Piccadilly Circus, certamente, para a maioria, ao planejar explorar a capital britânica, essas opções estão na lista. Devemos concordar que todos esses lugares são maravilhosos e cada um tem sua magia.    Porém, neste artigo, iremos mostrar opções de mercado em Londres para explorar. Os mercados em Londres […]

  • Quando o pai bate na mãe

    by on 19 de abril de 2021 - 0 Comments

    Os filhos da violência doméstica também são vítimas do agressor. O Brasil ignora as crianças que testemunham suas mães em situação de perigo dentro de casa. Elas carregam consequências por toda a vida e precisam de atendimento e proteção Eu me lembro como se fosse ontem. Um flash me vem nítido na memória. Tinha sete […]

×
Portal Londres