Carta aberta ao homem agressor

Destaque Principal, Fique por dentro, Utilidade Pública 18 de janeiro de 2021

O mundo mudou e não tolera mais a violência contra a mulher. Não tolera mais gente como você. Mude ou a punição da justiça virá. Não atire pedras. Não atire. Não atire-se. Homens de verdade não batem em mulheres. Nos Respeite. Respeite seus filhos. Respeite-se como homem. Sempre é tempo de mudar.

Não é fácil olhar no olho de um homem agressor. Ou mesmo dirigir-se a ele. São criminosos que devem prestar satisfação à Justiça. Diante, contudo, de um quadro tão alarmante de mulheres agredidas e mortas, escrever uma carta aberta ao homem agressor é uma forma de enfrentá-lo. É espantoso e inaceitável que 119 mulheres tenham sido mortas no Brasil no início de  2019, nesta escalada desenfreada do feminicídio que assistimos. Em 71% dos casos, os crimes foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros, segundo levantamento recente da Folha de S.Paulo, baseado em estudo independente do pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), Jefferson Nascimento.

 

Escrevo, portanto, encorajada a falar diretamente com você, que agrediu ou vive agredindo a sua mulher, a sua ex-mulher, a sua namorada ou uma mulher com quem você tenha tido algum envolvimento amoroso. Dirijo-me a você, que deu um tapa. Você, que empurrou. Você, que chutou. Você, que deu um soco. Você, que tentou matar. Você, que desfigurou o rosto de uma mulher. Por que você faz isso? Por que não se dá conta de que isso é um comportamento criminoso, indigno e intolerável?

 

Já vivi a terrível experiência da violência doméstica, mas ainda busco respostas. Como ativista que me tornei, tenho estudado sobre os arquétipos do machismo, sobre padrões de comportamento agressivo. Tenho me debruçado em exemplos pelo mundo. Por mais que eu já tenha sofrido na pele, é muito difícil entender. Custo a acreditar que as coisas sejam assim em pleno século 21. Já me compadeci e me indignei com as mortes. E com a epidemia que nos cerca. Mas ainda não compreendo o que leva um homem a agredir. Homem agressor, o que você pratica é insano. É horrendo. É macabro. É vergonhoso. Não faz sentido que em 2019 cenas medievais aconteçam, como temos visto nos jornais.

 

Por isso, falo diretamente com você, homem agressor. Fico surpresa e estarrecida com cada caso que chega ao noticiário. Conheço as motivações que persistem numa sociedade machista e patriarcal. Sei também que você, homem agressor, talvez tenha vivido em um lar violento quando criança. E talvez você tenha visto o seu pai agredir fisicamente a sua mãe. Talvez tenha chorado diante dessa cena terrível. Mas, possivelmente, você processou na sua mente e interpretou, de uma maneira torta e tosca, esse gesto agressivo como um comportamento aceitável. Como algo natural da vida doméstica. Algo corriqueiro, que faz parte da rotina. Porque, na sua cabeça menor, é assim que tem que ser. Homem agressor, é preciso que você se conscientize. Violência doméstica é crime.

O que o leva a agredir? O que o leva a usar covardemente a sua força bruta contra uma mulher?  Talvez essa mulher agredida ainda ame você. E, confusa, tenha esperanças que tudo vai mudar e voltará a ser como antes. Mesmo tendo lhe denunciado, ela talvez ainda acredite que o seu comportamento vai se transformar. Também é possível que a mulher que você persegue já identificou que vive em uma relação abusiva. Mas, sem independência financeira ou emocional, ela permanece onde está. Ela apenas quer viver e se ver livre de suas perseguições. Mas tenta se defender de seu comportamento agressivo, desrespeitoso, odioso e hediondo.

Hoje, homem agressor, compreendo que comportamentos agressivos como o seu evoluem. Começam com brigas verbais. Ganham força com humilhações, cenas de ciúmes despropositadas, abusos de todo o tipo, intervenções manipuladoras e de dominação. É quando brigas físicas vão tomando corpo. E, sim, literalmente tomando o corpo da mulher de marcas roxas.  Sei que, muitas vezes, você bebe. O abuso de álcool o deixa agressivo e descontrolado. E que, naturalmente, você banaliza o seu ato repulsivo. Acha que isso acontece porque tem que acontecer. Você enxerga como um ato insignificante, sem explicação, porque acredita ridiculamente que aquela mulher é sua propriedade. E no dia seguinte, você finge que nada aconteceu, o que é patético e rudimentar, além de trágico.

Tento entender como você, homem agressor, age repetidamente sem ter qualquer sensação de medo ou de culpa. Você age sem limites mesmo já tendo sido denunciado, mesmo já tendo sido autuado com medidas protetivas garantidas pela Lei Maria da Penha. Essa lei é, reconhecidamente, uma das melhores leis de proteção à mulher em todo o mundo. A lei já existe há 12 anos, mas garanto a você que, com a mobilização da sociedade, ela será melhor aplicada e as medidas protetivas serão melhor fiscalizadas. Sendo assim, que sentimento de impunidade é esse, homem agressor?

 

Me remeto ao recente caso de Jane Cherobin, brutalmente espancada pelo namorado Jonas Amaral, numa cidade do Espírito Santo. Em entrevista ao Fantástico, essa moça, vítima de uma monstruosidade, contou que as humilhações e agressões verbais a levaram a querer romper com o então namorado. Veio então a agressão física nefasta que não a matou por um triz. Dias depois, o corpo de Jonas, foragido e procurado pela polícia, foi encontrado. Aparentemente, ele teria cometido suicídio. A exemplo do que você faz, homem agressor, o descontrole de Jonas o levou a tentar matar Jane. Foragido e acuado, ele não suportou o que fez e tirou a própria vida. O que levou este homem a agir assim? Ele estava doente? Era alguém que precisava de tratamento? Como esse quadro trágico poderia ter sido evitado? Especialistas em saúde mental deveriam se engajar nessa causa.

Homem agressor, eu me dirijo com firmeza a você.  Pare. Mude. Há programas de reabilitação de agressores, como “Tempo de Despertar”, coordenado pela promotora de Justiça Gabriela Manssur, com resultados bem sucedidos de reabilitação. O tratamento previsto em lei contra o marido agressor se assemelha a um tratamento anti-drogas. É importante reconhecer que trata-se de um vício para a mudança ocorrer. Muitos levam tempo para se conscientizar. Muitos conseguem se reabilitar, como aponta o programa. Trabalhar pela transformação de homens agressores é um esforço necessário para deter a violência e ajudar as mulheres.

 

Li recentemente no portal G1 sobre um estudo da pesquisadora Natalia Bueso Izquierdo, do Centro de Investigação Mente, Cérebro e Comportamento da Faculdade de Psicologia da Universidade de Granada, na Espanha.  O estudo comparou o funcionamento do cérebro de agressores com o cérebro de outros criminosos por meio de ressonância magnética funcional. A conclusão foi de que os cérebros dos homens que agridem mulheres funcionam de forma diferente em comparação aos de outros criminosos.

 

O objetivo desse estudo foi entender você, homem agressor, e saber como melhorar as terapias que possam modificá-lo. Pelo estudo, não há um perfil único que caracterize o agressor. Algumas das características mais descritas são a inflexibilidade cognitiva, pensamentos distorcidos, impulsividade e a dificuldade de assumir os próprios atos.

 

Para a pesquisadora, é difícil determinar que peso têm os fatores biológicos em comparação aos fatores sociais que levam um homem a cometer atos de violência contra uma mulher. A reabilitação é uma batalha necessária. A penalização é fundamental, mas as práticas psicossociais para que essa transformação social aconteça é um trabalho paralelo que precisa ser fortemente incrementado para que a prevenção seja eficaz.

 

Procuro examinar o mesmo cenário no mundo, homem agressor. Tive a honra de ser homenageada pelo Senado do Estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, pela minha contribuição ao enfrentamento a violência contra mulher. A comunidade brasileira em Boston vive problemas semelhantes. Recebi o diploma de citação oficial do senador americano James B Eldridge durante o jantar de um jantar de gala da ONG AME (Associação de Mulheres Empreendedoras), liderada pela ativista Lilian Mageski. O trabalho de empoderamento e suporte da mulher vítima de violência doméstica tem sido importante. Portanto, você, agressor que lê esta carta, saiba que a proteção às mulheres e o cerco a pessoas como você está se intensificando no mundo inteiro, sob várias frentes.

 

A Lei Maria da Penha, homem agressor, prevê a adoção de estratégias de reabilitação para pessoas como você. As pesquisas sobre o homem autor de violência têm se desenvolvido com maior intensidade no Brasil e no mundo. Mas o campo precisa se expandir ainda mais. A falta de conhecimento do assunto dificulta a criação de políticas públicas.

 

Li recentemente declarações do psicólogo Adriano Beiras, professor do programa de pós-graduação e do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ele observa que, no passado, havia preconceito com os trabalhos relacionados ao agressor. Segundo o psicólogo, até então se entendia que trabalhar com os homens que cometiam violência doméstica era trabalhar contra as mulheres. Agora, sustenta o especialista,  cresce o entendimento de que quando se trabalha com o homem autor de violência está se trabalhando para a mulher. Para que esse agressor deixe de bater em outras mulheres.

 

Homem agressor, dirijo-me a você nesta longa carta aberta. Procure tratamento. Transforme-se. Entenda que se você não mudar, não escapará da justiça. A sociedade mudou. Não vai mais tolerar gente como você. Mude por bem, ou a punição da justiça virá. Quem ama não mata. Essa frase é antiga, já foi título de minissérie na TV Globo, e precisa ser repetida quantas vezes forem necessárias. Aqui faço uma adaptação: quem ama não bate. Respeite as mulheres. Não atire pedras. Não atire facas. Não atire com revólver. Não atire. Não atire-se. Os homens de verdade, com H maiúsculo, decididamente não são como você.  Homens de verdade não batem em mulheres. Nos respeite. Respeite seus filhos. Respeite-se como homem. Sempre é tempo de mudar.

Luiza Brunet
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