Entenda a polêmica dos resultados de A Levels na Inglaterra. Por que tantos estudantes foram prejudicados?

Curiosidades de Londres, Economia/Política, Fique por dentro, Leia Mais, Mais Lidas, Para Dar Detaque, Sem categoria, Utilidade Pública 19 de agosto de 2020

Entenda a polêmica dos resultados de A Levels na Inglaterra. Por que tantos estudantes foram prejudicados?

Imagine que você é um estudante da Inglaterra terminando o ensino secundário, cheio de planos, ambições e sonhos, e que um dos maiores deles é ingressar em uma boa universidade. Mas o ano é 2020 e, em razão de uma pandemia, causada por um vírus que matou quase um milhão de pessoas em todo o mundo, sua escola permaneceu fechada por meses. Por causa dessa mesma pandemia, você também não pôde fazer um dos exames mais importantes da sua carreira escolar, os chamados A Levels. A título de esclarecimento, os A Levels são exames em nível secundário feitos por matérias (Matemática, Literatura, Física, etc) e são os alunos quem escolhem as disciplinas que vão cursar (geralmente levando em consideração a carreira que querem seguir em nível universitário).
Os resultados dos A Levels (assim como o de outros exames em nível secundário), em um país como a Inglaterra, onde não existe vestibular, determina se um adolescente terminando o ensino secundário está preparado o suficiente para ingressar em um curso universitário. Quanto mais concorrido o curso e a universidade, mais alta precisa ser a sua nota alcançada no A Levels.

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A Sabe vestibular pra medicina em universidade brasileira pública de renome, em que o aluno precisa praticamente gabaritar a prova para conseguir uma vaga? O processo seletivo que leva em conta a nota de Levels em universidades como Cambridge e Oxford é parecido. Só os alunos com notas super altas (como A* e A) são geralmente selecionados, além de terem de passar por uma entrevista bastante difícil.
Pois bem. Acontece que o ano letivo para cursos de gradução na Inglaterra só começa em outubro, os resultados de A Levels saem uns meses antes, em agosto, mas as candidaturas, feitas online através de uma plataforma chamada UCAS, são geralmente enviadas às universidades entre outubro do ano anterior e janeiro. É por isso que as escolas (ou candidatos) enviam as universidades as chamadas notas estimadas (“predicted grades”) para as universidades.
Essas notas levam em consideração o desempenho do aluno ao longo do ano e também notas de exames simulados. Com base nas notas simuladas, as universidades oferecem aos candidatos uma vaga “condicional”, ou seja, uma espécie de oferta de vaga condicionada à nota final do aluno. Ao receber a nota final, o aluno consegue confirmar, ou não a vaga, dependendo do critério de seleção da universidade escolhida. Por exemplo, se eu me candidatar à Medicina e a nota exigida for A em Biologia e Química e as minhas notas estimadas forem A ou A*, segundo meus professores, eu consigo uma pré-vaga naquele curso, que fica reservada pra mim até o meu resultado final sair. Se eu obtiver aquelas notas exigidas depois de fazer o exame final, a vaga é confirmada.

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Mas se você não fez a prova (não por culpa sua, mas por culpa da pandemia, lembra?), como é que você vai receber a sua nota (e a sua qualificação final?). Depois de muita discussão, o governo decidiu usar um algoritmo para calcular a nota que o aluno tiraria se tivesse feito a prova. A ideia era evitar que as notas estimadas estivessem fora da realidade e da capacidade dos alunos e que tivessem sido inflacionadas. Esse algoritmo levou em consideração, dentre outros fatores, a média obtida por estudantes nos últimos 3 anos em determinadas disciplinas. E esse foi só o começo do problema.
Por exemplo, se você cursou Biologia como matéria no A Levels e se saiu super bem nos projetos, deveres de casa e exames simulados, teve uma nota estimada alta, mas os alunos da sua escola foram mal nos anos anteriores, a sua nota final, decidida por um algoritimo, acabou por ser baixa. Em média, 40% mais baixa em todo o país. Pior ainda foi o fato de os alunos de escolas do governo, geralmente de um nível sócio-econômico mais baixo, terem sido muito mais afetados do que os de escolas privadas em razão da maneira como o algoritmo foi construído.
E como o governo decidiu que a nota dada pelo algoritmo era a válida (essas notas são enviadas diretamente às universidades com antencedência antes de serem publicamente divulgadas, para facilitar o processamento dos resultados), as universidades passaram a considerar a nota do algoritimo. E foi assim que no dia 13 de agosto, dia oficial dos resultados de A Levels, milhares de estudantes perderam a vaga que tinham ao receberem resultados muito mais baixos do que os estimados por suas escolas. E o pior, alguns estudantes foram reprovados completamente, ou seja, tiraram zero, segundo o algoritmo, e ficaram sem a qualificação de ensino secundário em alguns casos.
Essa história, que mais parece de ficção científica, causou tanto problema que ontem, dia 17 de agosto, o governo decidiu rever a decisão de que a nota do algoritmo deveria ser a considerada, e anunciou que a nota estimada pelos professores era a válida. Para alguns alunos, era tarde demais, já que algumas das universidades mais seletivas já não tinham mais vagas disponíveis em determinados cursos, em razão de terem rejeitado os candidatos pré-aprovados que não atingiram as notas exigidas por elas (de acordo com o algoritmo) e oferecido vagas a outros estudantes.
Por outro lado, várias universidades anunciaram hoje, dia 18 de agosto, que vão revisar suas decisões e que, por uma questão moral, vão considerar as notas estimadas pelos professores, não por um computador, incluindo a melhor do mundo, Oxford University.
Se você tem filhos nessa situação, ou está nessa situação, entre em contato com a universidade para a qual você se candidatou ou informe-se onde mais seu curso é oferecido e tem vagas. Essa polêmica está longe de acabar, mas a maioria das instituições de ensino têm implementado medidas para mitigar o problema e trazer justiça a muitos estudantes.

Texto por Veridiana Ribeiro

Veridiana Ribeiro

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