Envelhecimento: Reflexões sobre o processo de luto e perdas da pessoa idosa

Fique por dentro, Leia Mais, Saude 18 de novembro de 2019

“Pobre velho que, no curso de sua longa vida, não tenha se apercebido que deve arredar o medo da morte” (Marco Túlio Cícero)

Estou temporariamente residindo em Lisboa, devido ao meu curso de mestrado em cuidados paliativos, e andando pelo meu bairro, no transporte público e nas dezenas de cafés espalhados por Lisboa, observei que esta é uma cidade com um número considerável de idosos, assim como em Reading, minha cidade na Inglaterra e demais cidades europeias.

Portugal e Reino Unido têm hoje aproximadamente mais de 2 milhões e 3 milhões de idosos respectivamente.

Contudo, segundo o Ageing Working Group of the Economic Policy Committee (EPC) e o European Commission’s Directorate-General for Economic and Financial Affairs (DG ECFIN), a Alemanha e a Itália é que possuem a maior percentagem de idosos acima de 65 anos.

A União Europeia possui uma projeção de 520 milhões de pessoas idosas em 2070. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), o número de pessoas com idade superior a 65 anos chegará a 2 bilhões até 2050. Isso representará um quinto da população mundial.

O Brasil segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país tinha mais de 30 milhões de idosos em 2017, ou 13,5% do total da população. Em dez anos, chegará a 38,5 milhões.

Em 2042, a projeção do IBGE é de que a população brasileira atinja 232,5 milhões de habitantes, sendo 57 milhões de idosos (24,5%) da população estimada.

O envelhecimento populacional é hoje um desafio, econômico e social, para a maioria dos países ao redor do mundo.

A população idosa requer cuidados especiais em áreas tais como, saúde pública e mobilidade urbana.

Os gastos em sistemas de saúde, cuidados de longo prazo e ambientes propícios mais amplos, necessitarão ser expandidos para garantir o bem estar das pessoas mais velhas.

Por exemplo, investimento em cuidado de longo prazo ajudará pessoas com perda significativa de capacidade a manter uma vida com qualidade e dignidade.

Neste sentido, as políticas públicas devem ser estruturadas de forma que permitam um maior número de pessoas alcançarem trajetórias positivas durante o processo de envelhecimento.

Contudo, o processo de envelhecimento não é apenas um desafio para os governos. É também para o próprio indivíduo.

É uma etapa do ciclo vital muito significativa, em que a pessoa se dá conta de que o corpo físico, e às vezes a mente, mesmo com todos os avanços tecnológicos da medicina e áreas afins, está perdendo a vitalidade e a plasticidade.

Para além da questão biológica, a idade avançada frequentemente traz mudanças e uma série de perdas reais e simbólicas.

As perdas são sempre difíceis de serem manuseadas porque dizem respeito às histórias de vida dos indivíduos, seus desejos, suas expectativas, suas ansiedades e motivações (Herédia, 2010).

Ao envelhecer o indivíduo indubitavelmente vivenciará perdas que estão relacionadas à morte real de amigos e companheiros(as), à saída dos filhos de casa, ao corpo, a sexualidade, ao fim das relações de trabalho – aposentadoria, ao relacionamento social e familiar.

Tais perdas perpassam tanto a dimensão do físico, em sua concretude, como os universos profissional, social e familiar. São vivenciadas, muitas vezes, concomitantemente (Cocentino; Viana, 2011).

Mesmo que o envelhecimento esteja sujeito a fatores como a percepção que o indivíduo e a sociedade detêm sobre o processo, pois hoje se tem a falsa ilusão de que é possível “bloquear” o envelhecer com medicamentos e cirurgias, é certo de que, em muitos casos, com o avanço do tempo, o corpo e a saúde sofrem o impacto das degenerações e envelhece, podendo apresentar maiores suscetibilidades ou vulnerabilidades e tornar-se cada vez mais propenso ao desenvolvimento de doenças e moléstias graves ou crônicas.

Essa perda fisiológica do envelhecimento implica luto intenso, pois o corpo doente rompe a ilusão de imortalidade.

O adoecimento grave ou crônico implica perda do status de ser saudável, resultando, muitas vezes, na perda de autonomia, no abalo na integridade física e em uma inevitável aproximação com a reflexão acerca da própria finitude (Kreuz; Franco, 2017).

Aqui está um ponto importante a ser refletido. A sociedade moderna, principalmente a ocidental, não prepara o homem para a morte e consequentemente não o faz pensar sobre as questões que permeiam o envelhecer e o morrer.

Elisabeth Kübler-Ross (1998), defende que a morte é frequentemente imaginada como um acontecimento medonho e pavoroso na sociedade, constituindo um temor compartilhado por todos.

Assim, os homens parecem se esquivar da morte ou até mesmo ignorá-la, de forma que o homem parece negar a própria condição de ser mortal. Como consequência, não conversamos sobre morte com nossos pais e avós.

Outro ponto que carece um olhar mais atento é no que tange ao preparo dos filhos para a finitude dos pais. Segundo Cocentino e Viana (2011), a concepção de mortalidade dos pais costuma, também, ser negada e abstraída com frequência pelos filhos, uma vez que pode gerar sentimentos de desamparo e fraqueza nos mesmos.

Igualmente, o declínio das funções orgânicas advindo com o envelhecimento é negado e evitado com frequência pelos filhos por estar associado à finitude da vida.

Neste sentido, nem sempre os familiares compreendem as perdas, reais e simbólicas, que os idosos enfrentam. Muitas dessas perdas afetam diretamente a dinâmica familiar, modificando os papeis, as responsabilidades e as atitudes.

Por isso, a importância que o filho(a) mantenha um diálogo franco com os pais sobre o quão todas essas perdas podem estar sendo difíceis para eles experenciarem. Conversar com os pais sobre as dificuldades enfrentadas na velhice e o morrer não é imoral; é um ato de amor.

Como pudemos perceber, o processo de envelhecimento abarca uma série de questões objetivas e/ou subjetivas que estão muito além dos sinais aparentes na face.

O envelhecer requer um trabalho de luto quase que diário em consequência das perdas vivenciadas cotidianamente. Nesse sentido, precisamos nos preparar cognitiva e psiquicamente para o fenômeno do envelhecimento e, claro, isso implica nos preparamos para a nossa finitude.

 

Nota: Para a escrita deste post eu tive a colaboração de dois colegas admiráveis que me cederam algumas fontes de informação.

Dinis Oliveira – Enfermeiro da Casa de Saúde da Idanha de Sintra/Portugal

Erika Pallottino – Psicóloga clínica, Sócia fundadora do Instituto Entrelaços http://www.institutoentrelacos.com/

 

Nazaré Jacobucci é Mestranda em Cuidados Paliativos na Fac. de Medicina da Universidade de Lisboa
Psicóloga Especialista em Luto, Especialista em Psicologia Hospitalar, Psychotherapist Member of British Psychological Society (MBPsS/GBC), escreve para o blog http://www.perdaseluto.com e é colaboradora do Portallondres.

Uma Comentário para “Envelhecimento: Reflexões sobre o processo de luto e perdas da pessoa idosa”

  1. Tereza nogueira em 5 de agosto de 2019 @ 13:54

    Adoro as reflexões desta profissional com a qdo ao aprendendo muito sobre os processos de luto.
    Obrigada mais uma vez

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