Consequência Política: Europa Plano Fragmentada – Parte 2

Economia/Política, Fique por dentro, Leia Mais, Mais Lidas, Saude 28 de julho de 2019

Em maio deste ano (2019), ocorreram as eleições para o Parlamento Europeu.

O Parlamento Europeu é a única instituição parlamentar da União Europeia (UE), e, junto com a Comissão Europeia e o Conselho da União Europeia, faz parta da estrutura tripartite das funções legislativas deste bloco econômico e político.

O Parlamento conta com 751 parlamentares e trabalha em conjunto com os 28 governos nacionais que são os membros da União Europeia.

São mais de 180 partidos diferentes atuando no Parlamento. As eleições para esse órgão político ocorrem desde 1979, e têm a frequência de acontecerem uma vez a cada 5 anos.

O Parlamento co-decide leis referentes ao mercado comum europeu, políticas de proteção ambiental, proteção de informação digital, imigração, leis de pesca e agricultura. O órgão também pode ser responsável por supervisionar instituições nacionais europeias.

Importante reiterar que o Parlamento pode vetar ou aprovar futuras leis, mas necessita da Comissão Europeia para que se dê inicio ao processo de formulação destas. O Parlamento é um órgão de extrema importância para o funcionamento da União, o que significa que a escolha de seus representantes deve ser feita com muita cautela pelo eleitor.

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O resultado das últimas eleições parlamentares europeias foram um retrato resumido da política atual vivida na maior parte do mundo. O que se viu foi uma alta fragmentação de pólos ideológicos, onde, para governar, os partidos deverão fazer coalizões estratégicas.

Um fator positivo foi que os resultados surpreenderam até os pessimistas que acreditavam que os partidos neonacionalistas iriam levar a melhor.

É fato reconhecer que estes obtiveram um crescimento exponencial de 12% em termos de ganhos de assentos totais, porém, na contramão, partidos que pregam por valores mais humanitaristas e liberais tais como a igualdade de gênero e o meio ambiente, também ganharam mais espaço – um total de quase 15% a mais de assentos.

À esta dicotomia de esfera ideológica-política – consigo atribuir algumas variáveis que ajudam explicar as escolhas eleitorais:

Quais os motivos para essa fragmentação:

A primeira variável que consigo reconhecer é o da crise econômica que mencionei no artigo anterior, seguida pela variável: “luta de gerações”. O think-tank referência nos estudos em União Europeia, o “European Council on Foreign Relations” (ECFR) (https://www.ecfr.eu/about) constatou que a questão geracional foi uma das principais apontadas para a fragmentação de escolha nas urnas.

Por conta de fatos recentes que colocaram em questão a própria existência da UE, mais jovens se conscientizaram e foram às urnas nessa eleição. Principalmente para defenderem os seus direitos, isso explica o aumento na escolha por partidos de valores mais preocupados com o futuro distante.

Os que possuem menos de 30 anos, tendem a votar por partidos mais preocupados com um futuro sustentável a longo prazo, cujo o debate possui uma linha mais liberal e mais tolerante.

Essa postura certamente foi um embate contra pessoas mais velhas (acima dos 45 anos – de acordo com os dados), as quais tendem a votar por partidos mais conservadores e com discursos nacionalistas / protecionistas, como o “Brexit Party”. Isso é na sua maioria devida ao fator medo, o medo de perder, por exemplo, direitos de suporte social.

A terceira variável é a geográfica, que faz junção com a econômica. A UE possui uma área total de quase 4.500.000 km2, tornando-se o sétimo maior território no mundo por área. Obviamente que essa extensão e diversidade geográfica iriam impactar urnas e escolhas políticas.

Os países são variados e suas economias acompanham o desenvolvimento da sua população – sem falar na diferença cultural e de crenças que cada um desses países possuem frente aos seus vizinhos de bloco.

Nessa última eleição, as divisões geográficas se tornaram divisões ideológicas, países do Sul votaram contra partidos pró políticas de austeridade, países mais ao Leste votaram a favor de partidos mais nacionalistas, países Nórdicos e alguns do Centro votaram pelos ecológicos. Isso resume que o novo campo de batalha será entre mudanças climáticas e a incorporação do estado de direito.

Para evitar que a geografia se torne o fator determinante nesse contexto, os grupos políticos devem examinar mais de perto o mandato político que os eleitores lhes deram sobre essas questões.

Onde a variável emocional afetou a escolha do eleitor?

A última variável que considero de tamanha importância no divisor de águas dessa eleição é a questão emocional. Já disse anteriormente que somos movidos de emoções, e que estas são intimamente ligadas as nossas escolhas, isso acontece sem nem nos darmos conta, portanto isso não seria diferente nas nossas escolhas políticas.

Os eleitores foram motivados por estresse e medo, mas otimismo também. Eles deram à Europa a chance de provar que se pode falar sobre suas preocupações sobre o mundo. Mas essa oferta pode se tornar limitada com o tempo. A pressão vai ser grande sob os atores políticos à começarem a trabalhar para superar o abismo.

Diagnóstico da Escolha

O que se vê em linhas gerais, tanto para a direita quanto para a esquerda, é uma busca por novos valores e por uma mudança de rumo na política clássica europeia. Por muitos anos, partidos centristas, sem muita divisão ideológica tomaram conta do cenário político.

Estes eram representados por burocratas que cada vez mais se distanciavam do seu eleitorado tanto no quesito de apelo emocional quanto no quesito de escolhas políticas, mas o dia dos políticos céticos entraram em declínio. Estando cada vez mais em extinção, o clássico político europeu abre espaço para escolhas eleitorais mais “calorosas”.

O interesse em mudar o percurso do futuro foi constatado no índice de participação eleitoral. Essa foi a eleição com a maior participação política dos últimos 20 anos. Foram mais de 51% de eleitores do total de pessoas aptas a votar. E essa porcentagem incorpora 28 países, os quais foram mobilizados a escolherem quem os representa dentro de uma estrutura supranacional – a qual eles não participam diretamente.

Para o eleitor atual, pouco importa o que o seu candidato faz com a taxa de juros do Banco Central Europeu, o que importa, em linhas gerais, são questões imediatas, no caso, como medidas políticas que vão ser revertidas em maiores oportunidades de emprego, ou preços baixos no mercado de consumo. Porém, tudo é um processo cíclico.

Um outro fator determinante para o descontentamento eleitoral é o fato de Bruxelas parecer uma realidade intangível para muitos eleitores europeus, longe de sua realidade e em consequência o fator transparência, onde nem sempre as escolhas políticas feitas são informadas diretamente. Isso per se já uma estrutura a ser questionada.

Não perca o final desta análise na parte 3!

Maria Antonia De’Carli é colunista do Portallondres.
Imagem Pixabay
Maria Antonia De Carli
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