Síndrome de Ulisses: o sofrimento de quem imigra

Mais Lidas, Saude, Utilidade Pública 28 de março de 2019

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Quando vim para Londres, com tudo organizado e planejado, jamais iria imaginar que teria uma espécie de depressão. No entanto, me deparei com a dificuldade que todos os migrantes enfrentam e acho que só quem realmente passa por isso entende, porque as pessoas que ficam no país de origem (no caso o Brasil), sempre acham que estamos super bem, que deveriamos estar felizes e temos a maior sorte do mundo!

Quem é imigrante (pessoa que deixa o país de origem para viver em outro pais ou lugar) sabe que não é uma viagem de turismo, onde tudo nas férias é lindo e quando voltamos estamos com a vida organizada.

Começar a vida em outro país é desorientador, geralmente não conhecemos o idioma, buscar trabalho não será na área de atuação, ficar longe da família e dos que amamos, sentir que não somos mais ninguém, não temos o status que tínhamos no nosso país, não somos os profissionais que éramos lá, pois aqui estamos começando do ZERO, igual criança somos analfabetos, que precisamos aprender a se expressar e sobreviver.Quando nós emigramos, seja por escolha ou por força das circuntâncias como pobreza, guerra, conflitos religiosos, entre outros, estamos sujeitos a vivenciar diversas situações de estresse, dificuldades de adaptação, solidão, saudades da família, da comida, do lugar, do idioma, da cultura onde crescemos, e de muitas outras coisas.

Por isso, muitas vezes as pessoas (imigrantes) desenvolvem problemas como depressão, transtornos de ansiedade, pânico, estresse pós traumático, e outros problemas que podem estar associados a imigração, estes sintomas foram descritos e caraterizados na Síndrome de Ulisses, descrita pelo psiquiatra pesquisador Joseba Achotegui em 2000.

Vou falar um pouco desta síndrome e das perdas que envolve, que eu passei e acredito que praticamente todos os imigrantes em geral sofrem, alguns com menos intensidade outros com mais, alguns chegam a desenvolver transtornos mentais, depressão cronica e severa devido as dificuldades de adaptação.

Chamamos de DUELO MIGRATÓRIO aquele sentimento que ficamos comparando as situações, lugares, culturas etc. é aquele desejo de ir e ficar, é uma luta interna para seguir a vida adiante no país de moradia atual, porém seu coração ainda está no passado, parte de sua vida ficou no país de origem. Como se ficássemos divididos em dois mundos, um do qual podemos planejar o futuro onde racionalmente pensamos ser melhor, mas que devidos as diferenças culturais e sociais é muitas vezes cheio de obstáculos, espinhos, e dores. Outro no entanto, estamos emocionalmente ligados ao pais de origem, é como se esquecêssemos as coisas ruim e olhamos para o passado, nas coisas que eram boas, as lembranças e experiências que nos construíram, sempre seremos parte do nosso país, somos considerados “brasileiros” parte de nossa identidade. Esta constante luta interior pode-se chamar de “duelo ” uma batalha entre o voltar e o ficar!

Temos várias perdas quando migramos e estas são como lutos que precisam ser elaborados:

A perda de identidade: é algo que nos afeta com um todo, não somos mais as pessoas , os profissionais, não sabemos nos relacionar no país atual, nem temos a liberdade e espontaneidade do jeito de ser, porque no país atual as relações são diferentes e nós ficamos perdidos entre quem somos e quem éramos.

A perda da linguagem: uma das mais desestruturantes sensações, não conseguir se expressar é sem dúvida frustrante e causa de sentimentos de impotência e inferioridade.

A perda da cultura: que é nossa forma de nos relacionarmos, a comida típica do lugar, as roupas, as músicas, as brincadeiras entre outras formas de costumes e comportamentos.

A perda de status: tanto como profissão que exercíamos no pais de origem, como o respeito pela comunidade, os trabalhos onde as pessoas nos conheciam, éramos alguém e nos país atual é como se não fossemos nada, ninguém nos conhece, ninguém sabe quem somos, somos apenas um na multidão.

A perda da família: ficar longe de quem amamos, não ter mais o suporte de amigos e familiares é talvez uma das coisas que mais entristece. É como você morrer de uma forma, mas continuar vendo que todos seguem suas vidas, você não pode estar nas reuniões de amigos, ou nos almoços de domingo em família, nem nas festas de aniversário e casamento, tudo vai acontecendo longe de você. E mesmo com a tecnologia atual não diminui a falta de um abraço dado pessoalmente e um ombro pra chorar, a solidão é um dos maiores sofrimentos que leva a depressão de quem migra.

A perda da Terra: parece pouca coisa, mas não é. Ficar sem o clima do lugar onde crescemos é muito mais difícil do que parece. No meu caso, a Inglaterra é uma país sem sol, temos 8 meses de inverno, o céu geralmente cinzento nos traz uma tristeza por falta de sol, ficamos realmente deficientes da vitamina D do sol. A falta dos lugares que costumavamos frequentar, do clima, da praia, do cheiro de mato, e até a falta daquela chuva pesada que depois vem o arco-íris.

A perda do sentimento de pertencimento: O grupo que pertenciamos, se erámos professores, ou dançarinos, ou religiosos, ou até a comunidade vizinhos etc. Todos nós fizemos parte de um grupo, é muito dificil um ser humano saudável viver sem estar em grupo. O sentimento de pertencimento, que antes tinhamos algo que nos identificava, que nos promovia na vida social, mesmo os almoços com amigos, encontros pra praticar algum esporte, etc. o Sentimento de não pertencer a lugar nenhum, causa um vazio que pode ser devastador para algumas pessoas.

Por isso é bem importante, tanto para os profissionais de saúde, como para os imigrantes que saibam reconhecer o que está se passando, não será apenas com medicação que os sintomas da Sindrome de Ulisses, podem se resolver. A maior parte das vezes é importante buscar ajuda psicoterapeutica para tratar os transtornos gerados pela mudança de vida e de país.

É fundamental tentar buscar se envolver com a comunidade, encontrar grupos de apoio e suporte que possam ajudar a superar e elaborar estas perdas. O isolamente somente irá gerar mais problemas mentais, emocionais e fisicos, podendo agravar os sintomas à situações severas de depressão, panico, desespero chegando ao suicídio.

Se souber de alguém que está sofrendo por ter imigrado e está com Sindrome de Ulisses, entre em contato com instituições que podem oferecer apoio psicológico, existem muitas instituições ao redor do mundo trabalhando com pessoas Latino Americanas, brasileiras, portuguesas, e que podem auxiliar e orientar.

Compartilhe este texto com alguém que seja imigrante. Você pode se increver no nosso blog e entrar em contato conosco, deixe seu comentário, envie uma mensagem, nosso projeto como Maes Brasileiras pelo Mundo é também uma forma de auxiliar os diversos brasileiros que precisam de ajuda, levar informação e ajuda-los a se conectar.

Publicado por Denize Cenci, Psicologa, especialista em terapia Familiar Sistemica(psy4u.uk@gmail.com)
+44 7801276457

https://maesbrasileiraspelomundo.com/2019/03/13/sindrome-de-ulisses-o-sofrimento-de-quem-migra-de-pais/

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