POPULISMO ELEITORAL: Uma Potente Arma de Desestabilizacao Social , vide BREXIT

Destaque Mais Lidas, Economia/Política, Mais Lidas, Para Dar Detaque, Saude, Utilidade Pública 23 de março de 2019

O Liberalismo está em declínio. A era das liberdades individuais, no qual o combo incluía governos mais de centro (centro-esquerda ou centro-direita) e o conhecido sistema multilateral de comércio eternizado pela Organização Mundial de Comércio – OMC, estão perdendo lugar para governos mais extremos (esquerda ou direita), políticos populistas e protecionismo comercial.
Esses últimos fatores listados são precedentes para a potencial chegada de uma nova ordem de governança global – onde a desconfiança e a raiva irão guiar estratégias eleitorais e discursos políticos.
Felizmente, esse cenário pessimista pode ser reversível, e grande parte dependerá do quanto a classe politica de certos países estarão dispostas a cooperar.
Discurso político e sentimento coletivo andam lado a lado, e muitas vezes, é difícil saber a ordem de predominância de um perante o outro.
O uso da expressão “sentimento coletivo”, é bastante complexo, mas à titulo de delimitação semântica, vou defini-lo como o sentimento que prevalece numa sociedade ou grupo social específico num determinado recorte de tempo – é o impacto do emocional na sociedade e nas suas escolhas politicas.
Pode não parecer, mas o emocional está presente o tempo todo nas nossas escolhas políticas. Políticos, por mais bem-intencionados que sejam, estão sempre “brincando” com os sentimentos dos eleitores. Muitas das estratégias eleitorais mais bem-sucedidas são aquelas que conseguem tocar nas feridas mais profundas da sociedade, canalizando-as e as tornando tangíveis. O trabalho constante do marketing eleitoral é mexer com as emoções do eleitorado, todo gesto, cor de roupa e sorriso é minimamente calculado para fazer o candidato estar apto a ser o seu favorito nas urnas.
Movimentar emoções faz parte do nosso dia a dia como ser humano, se Hollywood faz isso o tempo todo, por quê não os políticos que elegemos?
Usar emoções para ganho politico é efetivo. Canalizar essas emoções para o bem ou para o mal já outra história. Alguns políticos podem querer usar sentimentos que busquem soluções propositivas e agregadores, e que, ao destacarem problemas não tragam divisões ideológicas nem de outros cunhos como o discurso de ódio.
Um perfil de político mais pragmático esteve em alta a partir do fim da Guerra Fria (anos 90) até os meados de 2010 – são os então chamados tecnocratas ou sociais liberais – políticos de cunho mais moderados, que visavam o crescimento econômico em conjunto com crescimento social – são políticos mais técnicos que possuem, em sua maioria, um discurso em prol do coletivo e da sua nação como um todo. Esse político incentiva o crescimento através do liberalismo econômico e do comércio internacional. O político liberal/tecnocrata ficou eternizado na figura do Barack Obama dos Estados Unidos, onde muitos seguiram o seu modelo. No quesito exportação pode-se identificar Tony Blair no Reino Unido, Angela Merkel na Alemanha, Ollanta Humala no Peru, Lula no Brasil, e muitos outros. Em linhas gerais, pode se dizer que esses políticos liberais/tecnocratas possuíam ou possuem a tendência mais para “esquerda”, porém, dependendo do contexto e da sociedade que estão inseridos, essa característica pode variar, é o exemplo do Fernando Henrique Cardoso que pode se encaixar nessa descrição e ser identificado como um politico mais de “direita”**.

**Confesso, que por ser fruto da geração “millennials” (atenção para a nova nomenclatura da moda “millenials socialistas”), cresci com o sonho do liberalismo econômico, da igualdade social, e dos modelos de integração regional espelhados na União Europeia, não sou fã da classificação esquerda e direita, acredito que o debate politico perde muito tempo classificando ideologias, quando deveria se preocupar com questões mais importantes para a humanidade como um tudo, vide o meio ambiente, desigualdade de gênero, desigualdade social, automação tecnológica, direitos humanos e liberdades econômicas (seria eu uma defensora do politico pragmático liberal)?. Voltemos ao artigo, isso foi apenas uma observação para continuar o texto.

O modelo político/tecnocrata passou a entrar em declínio pós 2010, onde se dá espaço para um outro tipo de discurso político – por conta de um descontentamento coletivo econômico e cultural.
Apesar de parecer que os políticos tecnocratas eram incrivelmente capacitados e estivessem canalizando bem as emoções do seu eleitorado, eles esqueceram de uma grande fração da sociedade, que ficou para trás com a abertura comercial e a restruturação do modelo econômico, o sentimento de rejeição foi exacerbado com o aumento de fluxo migratório em algumas das principais economias mundiais – esse esquecimento foi um erro eleitoral crucial – e foi acentuado por escândalos de corrupção que mancharam as reputações de alguns dos políticos citados (e tambem não citados).
A imagem da elite política passou a ser associada a uma elite que responde apenas ao seu interesse pessoal – priorizando as elites internacionais e a comunidade global, negligenciando o interesse coletivo da sua própria nação – O desligamento de grupos intranacionais, para o ligamento de grupos internacionais.
Esse descontentamento coletivo nacional deu lugar ao medo coletivo nacional. Nesse contexto, presentes nos cenários eleitorais ao redor do mundo, um tipo de politico passou a se tornar o queridinho dos eleitores – e eles parecem possuir características muito similares que não da não para não chamar a atenção dos desavisados. Discursos inflamados, que prezam uma retórica maniqueísta – divisões entre o “nós” e o “eles”. O “nós” é disposto de inúmeras qualidades, e o “eles” é o principal vilão que prejudica o “nós” do seu progresso. Dependendo do contexto, o discurso de retórica divisória (discurso populista) pode possuir o caráter exclusivo ou inclusivo.
O medo coletivo está sendo usado como ferramenta efetiva de discurso político – onde o politico que possuir o poder da retórica oportunista vence nas urnas. Um politico populista baseia seu discurso em cima de soluções imediatistas, melhor remédio para o eleitor que está com raiva e medo, porém nem sempre essas soluções imediatistas de campanha são o melhor remédio para sanar frustrações politicas e sociais.
Uma evidente ilustração desse contexto é todo o processo do “Brexit” per se (nome dado ao processo de saída do Reino Unido da União Europeia). O Brexit oficialmente foi debatido em 2015 como uma promessa de campanha eleitoral pelo o então Primeiro Ministro Britânico, David Cameron. O Senhor Cameron, numa tentativa desesperada de se manter e manter o Partido Conservador no poder, prometeu que no ano seguinte de sua eleição iria implementar um Referendo de escolha popular referente a permanência ou não do Reino Unido na União Europeia. Na época da campanha eleitoral do Brexit, emocoes emergiram com força sob o contexto de descontentamento coletivo referente à políticos desinteressados nas suas nacoes e interessados nos burocratas de Bruxellas. Parafraseando Winston Churchil, “Democracia é ruim, mas é a melhor opção dentre as existentes” – será mesmo? – As consequências da promessa Brexit foram desastrosas para os principais eleitores dessa ideia. A campanha do Referendum em 2016 foi bastante similar a campanhas de Presidentes populistas que se encontram atualmente no poder. Inundada de informações mentirosas, apelos sensacionalistas e políticos oportunistas. Nigel Farage, ex-líder de um partido britânico radical de direita (UKIP), era a principal figura a favor do Brexit, ele possuía uma retórica bastante apelativa e inflamada, espalhava mentiras deslavadas, e desqualificava seus rivais.
Farage foi eficiente ao canalizar o medo da população e a desinformação da população britânico perante a União Europeia.** https://www.theguardian.com/commentisfree/2017/sep/18/boris-johnson-350-million-claim-bogus-foreign-secretary (exemplo de mentira deslavada de populistas mal intencionados – o escandalo do potencial gasto do NHS)

**A título de informação: os dias seguintes ao Brexit a principal sentença pesquisada no Google Reino Unido era: “O que é a União Europeia?”

O poder populista é tanto que não deu outra, os que votaram a favor da separação ganharam, porém o que se viu a seguir foram resultados desastrosos que deveriam servir de exemplo mundo a fora de: como um apelo político mal-intencionado pode gerar consequências desastrosas para toda uma nação, sendo imigrantes ou nao. Momentos seguintes ao Brexit geraram instabilidade no cenário politico e econômico do Reino Unido – o político que chamou pelo Referendo renunciou e em seu lugar entrou a principal negociadora do trato com a União Europeia, Teresa May, e para surpresa de todos o próprio Farage também renuncio seu posto de líder do UKIP. Farage eh o retrato classico do populista oportunista que quer ganhar espaco em cima da retorica imediatista.
O momento atual no Reino Unido é de espera e incerteza, o status quo de uma das principais e mais estáveis democracias do mundo foi quebrado e isso possui um custo muito grande para toda sua população.
O exemplo do Brexit, a meu ver, é um exemplo que não deve ser seguido, pois mira a intolerância como ferramenta emocional politica. É o remédio imediato, encontrando uma solução que destroi um direito básico do ser Humano – o direito da liberdade. Brexit foi a canalização do medo do cidadão comum britânico contra os imigrantes (“eles”) que irão roubar seus empregos, contra os imigrantes que irão roubar os seus direitos sociais, contra um governo burocrata que irá roubar seus impostos e contra abertura econômica (que foi a causa de tudo isso). Porém, o problema é mais embaixo, todos somos vitimas de alguma variável da sociedade (pode ser violência, falta de oportunidade e desigualdade), porém, o medo do imigrante roubar lugar de um nacional não passa de um mito – estatísticas econômicas apontam que ganhos econômicos de uma sociedade com fluxos migratórios são positivos – existe troca de ideias e cultura. Minar a liberdade de ir e vir é uma infeliz escolha. O problema aqui eh de racismo, sentimento que sempre esteve presente na cultura geral da maioria das sociedades, e por conta do discurso politicamente correto passou a ser condenado. As pessoas, infelizmente, nao deixaram de ser racistas e nem intolerantes com quem sao diferentes delas, em tempos de coleras e crises esse sentimento se expande como justificativa politica.
O que será do Brexit ainda está incerto, enquanto membros do Parlamento debatem a “melhor solução” a economia britânica perde, estatísticas apontam que a economia deixou de crescer quase 3% do seu potencial entre 2018 e 2019, e que com uma escolha Brexit Linha Dura essa perda poderia ser de até 9%. O custo para economia britânica pode ser estimado em até trilhões, empresas estão saindo do Reino Unido, assim como grandes projetos – com ou sem imigrantes, já imaginou o tanto de empregos perdidos com essa má escolha eleitoral?
Pois é, escolhas politicas possuem muitas vezes um alto custo – o Brexit reflete isso muito bem, sugiro que eleitores se mirem no exemplo do mal planejamento britanico. Para encerrar, foco numa frase que disse no inicio desse artigo: de que a nova era da intolerancia pode ser salva por potenciais politicos bem intencionados, nesse sentido, deixo minhas esperancas com a Jacinda Arden Primeira Ministra da Nova Zelandia que vem dado uma licao mundo a fora de compaixao e empatia, inclusive e principalmente aos imigrantes do seu pais.

Quando esse artigo estiver para ser publicado, o prazo de entrega do Brexit (29 de marco de 2019) estara se aproximado, e ao que tudo indica, o Reino Unido continuara mais algum tempo no limbo politico e economico – pois nem o seu governo e nem os burocratas de Bruxellas irao ter achado uma solucao definitiva e que nao sufoque a economia britanica.

Cost of Brexit

https://www.theguardian.com/business/2019/feb/14/brexit-has-cost-uk-economy-at-least-80bn-since-vote-bank-of-england-rate-setter
https://www.bbc.co.uk/news/uk-politics-46366162

Maria Antonia De Carli

Possui bacharelado em Relações Internacionais e Mestrado em Política Comparativa pela London School of Economics. Vive em Londres há 4 anos e trabalha com Risco Político e Crédito de Exportação. Além do seu trabalho formal, Maria se dedica a projetos politicos envolvendo Violência contra a Mulher, Integração da Mulher no mercado de trabalho e atua como correspondente internacional para um Think Tank no Brasil.

Foi co-fundadora do Brazil Forum UK.

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