Como permanecer são numa era de extremos?

Economia/Política, Mais Lidas, Para Dar Detaque 15 de fevereiro de 2019

Hoje recebi o convite para um evento que considerei, no mínimo, interessante:  “How to remain sain in the Age of Populism?” ou “Como permanecer são na Era do Populismo?”.

O evento me pareceu bastante coerente com muito do que penso sobre a realidade política e econômica do mundo atual – não é à toa que tive que entrar na lista de espera para conseguir o ticket, o que deve significar que muitos devem compartilhar do meu pensamento.

Na sua breve descrição, a exposição de sentimentos negativos: como ansiedade, medo e raiva; e no final, algumas pertinentes perguntas:

O que devemos fazer na Era do Populismo para nos sentirmos mais seguros? Devemos nos fechar em nossas próprias tribos? Criar novas tribos? Ou achar uma nova solução além das tribos?

De primeira mão, a resposta para esse problema me parece simples. Porém, a todo momento que paro para refletir sobre, a resposta me puxa para questões mais densas e complexas que tangem dogmas sociais e muito do que se acredita da Ordem Mundial do Liberalismo.

É inegável perceber que algo mudou no mundo da política, economia e, consequentemente, da composição social. As pessoas estão menos tolerantes, mais individualistas, preconceituosas, xenofóbicas e racistas do que estavam no início do século 21. E para mim, raiva é a palavra certa para descrever o sentimento coletivo atual.

Eu sempre me pergunto o por quê dessa realidade. O que deu errado com o projeto do liberalismo econômico e das liberdades individuais tão exaltados no fim da Guerra Fria? O fim dos Tempos, como reconhecido pelo respeitado economista Francis Fukuyama, nada mais foi do que um flash de otimismo que durou até a crise financeira de 2008.

No momento, só consigo apresentar reflexões sem conclusões concretas para o que realmente está acontecendo (afinal as variáveis são tantas que nenhum grande pensador conseguiu se arriscar a encontrar a principal). Portanto, convido vocês a pensarem junto comigo na era do Novo Populismo.

Muitos estudiosos e pesquisadores estão traçando paralelos entre o Novo Populismo e a realidade política e econômica da década de 1930 (anos antes da Segunda Guerra Mundial, cruciais para ela estourar): em 1930 o mundo estava se recuperando de uma imensa crise financeira global (A famosa Grande Depressão de 1929) Isso te lembra algo? Que tal a crise de 2008 dos EUA, que fez o sistema financeiro americano derreter e respingar com sérias consequências para o mundo todo?

Após a crise de 1929, países ao redor do mundo adotaram politicas econômicas e comerciais altamente protecionistas, fechando fronteiras (Guerra comercial EUA e China atualmente, talvez?). O trauma desta crise gerou um pavor coletivo nas sociedades, consumidas por uma inflação descontrolada (principalmente na Alemanha da Republica de Weimar) e por uma taxa de desemprego nunca vista antes na história moderna (6 milhões de pessoas foram afetadas apenas na Alemanha). Este temor coletivo passou a ser exaltado na boca de políticos que, com suas retóricas extremamente nacionalistas, apresentavam medidas imediatistas e discursos divisórios do “eu” e “eles” – alguns desses populistas de 1930 foram Mussolini e Hitler que deram origem a alguns dos movimentos mais assustadores da histórias, o Fascismo e o Nazismo, respectivamente.

 Porém, importante observar que os fatores macroeconômicos de 1930 não são tão similares aos atuais, que apontam para crescimento, e não recessão. As principais economias mundiais (EUA, Europa e China) estão apresentando crescimento positivo, desemprego baixo, e uma balança de pagamentos relativamente saudável. O cenário econômico global é estável, e  os resquícios da crise de foram relativamente bem controlados. Então, por que sentimentos tão nefastos voltaram a assombrar o imaginário coletivo?

Para explicar, escolho três variáveis: democracia desigualdade econômica e o mal-uso da liberdade de expressão.

Democracia

A democracia está em pleno exercício – de acordo com o Índice de Democracia da “The Economist” (https://www.eiu.com/topic/democracy-index), a participação politica cresceu e cresce constantemente em quase todas as regiões do mundo, inclusive a participação das minorias. Isso per se é ótimo, porém, o que me preocupa nesse contexto é a qualidade dessas democracias e a fluidez da liberdade de informações dentro desses cenários democráticos: democracias modernas são extremamente burocratizadas e sofrem do mal da corrupção (https://www.transparency.org/)

Quase toda sociedade moderna sofre com o mal da corrupção, e isso acaba com a percepção positiva dos mecanismos de funcionamento desses sistemas políticos. A Corrupção afasta o cidadão do seu governante e torna as elites politicas ainda mais inacessíveis.

Essa é a receita para que o cidadão se sinta mal representado pela sua elite politica. As pessoas veem políticos tecnocratas como uma elite distante e corrupta, que só visa seu próprio interesse. E, por isso, quando surge uma voz carismática nos palanques, legitimando a reclamação do povo, endereçando medidas fabulosas e dando vida à um discurso divisório, com um culpado bastante tangível, não tem quem não resista – pois alguns eleitores que estiveram à sombra do discurso politico liberal se sentem finalmente ouvidos – 

Não dá para suprimir um eleitorado em prol de valores da liberdade, não e mesmo? Isso não seria uma liberdade por completa.

Esse eleitorado sempre esteve aí, e é o que sofreu com a abertura econômica e a maior competitividade de trabalho – é a principal vitima do Liberalismo. Um eleitorado que acredita que seus valores e credos se perdem diante da liberdade sexual, de gênero e de escolhas. Um eleitorado que não consegue se enxergar no novo contexto de globalização. Esse eleitorado existe e não pode ser apagado – erro fatal dos políticos tecnocratas. 

Desigualdade econômica

Lembra que acima disse que as principais economias estão crescendo? O mesmo não se aplica para as qualidades dos serviços sociais e para a redução da desigualdade social. Os EUA são um excelente exemplo para avaliar essa situação. Economia relativamente aquecida com um crescimento do PIB estimado para 2.5% em 2019, porém, desigualdade social alarmante – 1% da população ganha praticamente 30 vezes mais do que 99%.

A crise de 2008 só serviu para exacerbar essa realidade, pessoas perderam suas casas, suas poupanças e seus empregos. Esse cenário se torna mais dramático com o aumento do investimento em tecnologia e a potencial automação do mercado de trabalho que daqui para alguns anos gerará um grande problema social.

Liberdade de expressão

Temos então a realidade de descontentamento politico e descontentamento social – prato cheio para políticos oportunistas conseguirem chegar ao poder. Entram aí as temidas “Fake News”.

Noticias falsas sempre existiram e foram disseminadas, porém, o impacto e a dimensão desse fenômeno está intimamente associada à disseminação tecnológica da era politica da pós-verdade. As mídias sociais colaboram para a viralização de noticias falsas o que, sem dúvida, repercute no sucesso de políticos mal-intencionados.

O discurso populista é contagioso e traz consequências devastadoras. E por mais importante que seja enxergar a causa de sua ascensão, é ainda mais relevante entender as suas consequências. Pelo que trouxe neste artigo, o populismo atual foi fruto de um desleixo do liberalismo, e por conta disso o liberalismo arrisca se perder da esfera politica e econômica. Se isso acontecer, entraremos em uma era de escuridão e de intolerâncias.

Fiz referência aos anos pré Segunda Guerra Mundial, pois acredito que existem mais semelhanças que diferenças – o discurso populista se baseia numa retórica extremamente divisória e alimenta a raiva de eleitores revoltados. O “eles” sempre são os culpados – dependendo do contexto o “eles” pode se aplicar a uma fração da população que vive em desvantagem em relação a maioria – como os imigrantes. Para muitos o elo fraco é fácil de apontar.

Infelizmente, a era do Novo Populismo está apenas começando. Muito esta por vir, e não se sabe que acontecera quando essas economias pararem de crescer. Acho que  é nosso dever nos se conscientizarmos dessa realidade e sermos tolerantes uns com os outros. Aceitarmos as diferenças, respeitarmos as liberdades individuais e tentarmos consertar o que não deu certo no liberalismo.

Quanto ao evento que falei lá no início?! Espero que eu consiga um lugar, pois quem sabe uma sessão assim me ajude a questionar melhor o atual populismo e obter respostas mais claras para soluções não incendiárias.

 Texto para refletir o Liberalismo morrendo diante dos nossos olhos:

https://www.theguardian.com/world/2019/jan/25/europe-coming-apart-before-our-eyes-say-30-top-intellectuals?fbclid=IwAR2f8sg5vt0nrnbCTx0Yuzujc59SwNs7Q7AV8qhWcSDAx9Cjk2xTbaYQ9X4&utm_source=EspressoMailing&utm_campaign=ab70daa757-EMAIL_CAMPAIGN_2019_01_26_04_44&utm_medium=email&utm_term=0_c15fb62a0e-ab70daa757-136702569

Maria Antonia De Carli
Últimos posts por Maria Antonia De Carli (exibir todos)

Não há Tags

  

Uma Comentário para “Como permanecer são numa era de extremos?”

  1. Parabéns pelo artigo. Eu que sou mais velho do que você estou sentindo o quanto esta intolerância vem crescendo na sociedade, impulsionada pelo fenômeno das mídias sociais. Espero que haja uma catarse coletiva para que as pessoas se deem conta da necessidade de que todos integramos o mesmo planeta e pertencemos à mesma tribo: seres humanos. Somente assim poderemos interromper esta caminhada em direção ao fracasso total como sociedade.

Deixe seu Comentário

×